A importância da memória de curto prazo

Embora há muito tempo se considere que a memória de curto prazo – o bloco de notas do cérebro, basicamente – seja apenas um componente do Q.I. geral, pesquisas recentes mostram que, na verdade, ela pode ser a alavanca capaz de elevar a inteligência como um todo.

Numa das maiores surpresas da pesquisa sobre inteligência, o grupo de cientistas liderado por Susanne Jaeggi e Martin Buschkuehl, da Universidade de Michigan, verificou que a memória de curto prazo pode ser o alicerce da inteligência num grau mais alto do que se suspeitava. Eles treinaram voluntários adultos numa tarefa difícil para a memória de curto prazo: era preciso ouvir uma série de letras e ver ao mesmo tempo uma série de telas de computador com um quadrado azul em lugares diferentes. E era preciso identificar quando a letra falada ou a posição do quadrado combinavam com a de várias telas anteriores.

Quanto mais exercitavam a memória de curto prazo, mais aumentava a forma mais pura de poder cerebral, a inteligência fluida – a capacidade de raciocinar e resolver problemas de forma independente do conhecimento existente. (A parte de raciocínio do teste usava as chamadas matrizes progressivas: ver três configurações geométricas e escolher qual das muitas opções seguiria o padrão.) Em junho, a equipe de Michigan obteve o mesmo resultado em crianças em idade escolar e confirmou que o treinamento da memória melhora o desempenho em testes de inteligência e, assim, pode ser o caminho mais seguro para um Q.I. mais alto.

 

“Há controvérsias quanto à possibilidade de o treinamento cerebral aprimorar a cognição”, diz o neurocientista Eric Kandel, da Universidade de Colúmbia, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina de 2000 por descobertas sobre a base celular e molecular da memória. “Mas quando realmente se exercita a memória, decorando poesias, por exemplo – os sonetos de Shakespeare servem –, provavelmente os aspectos da função cognitiva melhoram.”

 

Os exames de neuroimagem dão pistas de como o treino da memória aprimora a inteligência pura. Durante o treinamento da memória, os exames mostram que várias regiões do cérebro (o córtex pré-frontal lateral, o córtex parietal inferior, o cingulado anterior e os gânglios basais) ficam mais ativas, indicando que essas regiões estão envolvidas na memória. O interessante é que essas mesmas regiões também entram em ação quando o cérebro pensa e raciocina. “Com otimismo cauteloso, parece que há efeitos reais nesses estudos de treinamento da memória”, diz o psicólogo Jason Chein, da Universidade Temple. Nos seus estudos, ele verificou que adultos que treinaram uma tarefa complexa da memória de trabalho durante quatro semanas também sentiram melhoras significativas na compreensão da leitura.

 

Kandel afirma que a explicação desse tipo de ganho é o “treinamento intensivo” – bem diferente de soluções fáceis como comer mirtilos ou tomar suco de romã, segundo dizem. Acontece que a inteligência vem de ter mais sinapses (ligações entre neurônios). A criação de novos neurônios (neurogênese) e sinapses torna o aprendizado possível.

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